sábado, 26 de dezembro de 2015

Pensamentos

Pensamentos

I

A Galiza é esse velho leão
travestido em insecto
por nojentas carrachas
de sangue roxo e pus dourado.


II

Estes pensamentos
são muros de silvas
que não me deixam chegar a ti
como chega no verão
a agua da chuva ao rosto.



José Manuel Barbosa Álvares. (Ourense, 1963. Galiza)
Professor de Educação Física. Fez também estudos de História na UNED. Sócio da AGAL, ex-membro do Conselho Consultivo do Movimento Internancional Lusófono, faz parte do Clube d@s Poetas Viv@s. Ex-diretor administrativo do Instituto Galego de Estudos Célticos. Académico de Número da Academia Galega da Língua Portuguesa. Tem publicado artigos na jornal La Región, na revista Agália, no Portal Galego da Língua e em MundoGaliza.com. Publicou o Curso Prático de Galego (AGAL, 1999), Âmago/Mâgoa (Baia, 2002 - Em parcería com Roi Brâs), Bandeiras de Galiza (AGAL, 2006) e Atlas histórico da Galiza (Edições de Galiza, 2008).
É editor do blog Desperta do teu sono: http://despertadoteusono.blogspot.com.
(Públicado em Elipse núm. 3)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Non penses...

Non penses...

Non penses...

Espera a que amañeza
ou chova.
Espera a que sopre o vento
no teu interior.

Espera...
así:
pura,
descalza,
amorosamente viva...

que eu respirareite durante séculos.
Jaime Moreda Santamaría (Rivadavia, 1973. Galiza)
Leva escrevendo poesia desde a sua adolescência, empeçaria lá pelos 16 ou 17 anos. Não é um autor muito prolífico, ainda que ultimamente as suas musas estão a ser generosas dando como resultado que nestes anos escrevesse tanto como no resto da sua vida. Escreve tanto em galego como em castelhano e vem de sacar o seu primeiro poemário intitulado Pequeños poemas desesperados no que está compilada quase toda a sua produção poética.

(Públicado em Elipse núm. 3)

domingo, 13 de dezembro de 2015

Tributo sincero e amigo...


Tributo sincero e amigo...
Solidário para com todas as mulheres companheiras e mães...
Mas ainda para todas aquelas que optaram por outra orientação sexual...
Com a coragem e luta necessária contra o estigma e segregação...
Vós mulheres que sois duplamente exploradas!? ...
Parabéns para ti si, e elas...
Mas também para todas vós mulheres incompreendidas!?...
Inúmeras vezes agredidas e vilipendiadas!?...
- mas sempre musas...
Sois autoras de lindos textos espontâneos ou não...
Quando inspiradas, sois criadoras das melhoras obras de literatura...
Também na poesia...
Assim como em todas as outras áreas das artes...
José Carlos Costa (Vila Nova de Gaia. Portugal)

Filosóficamente libertário.
(Públicado em Elipse núm. 3)
 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Qaside do corpo

Collage


Moncho Iglesias Míguez (Vigo, 1974. Galiza)
Licenciou-se em Filologia Hispânica e está a fazer a_sua tese de doutoramento comparando contos de_tradição oral palestinos e galegos. Ministrou aulas de espanhol na Universidade de An-Najah, em_Palestina, trabalho que combina com a escrita literária e jornalística, e com a tradução. Colabora habitualmente com revistas como Tempos Novos e Dorna e no jornal digital Praza pública.
Entre as suas obras figuram títulos como o poemário Oda ás nais perennes con fillos caducos entre os brazos (2007), o romance Tres cores: azul (2009), os poemarios Pedras de plastilina (2012) e Abuelita-Aboiña (2013) ou as traduções desde o hebreu O_condutor de autobús que quería ser deus (2006) e Saudades de Kissinger (2011), e de Mahmud Darwix, a partir do árabe: Carné de identidade (2012).

(Públicado em Elipse núm. 3)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Berro de Amor

Berro de Amor

A da miña ten na súa, substrato animista ­­-non pode ser doutro xeito: a convivencia cos animais, a fonte cega, o lume da cociña de_ferro, velar os mortos na casa, dan arcanas sabenza e_percepción-,  cun minguante catolicismo devoto de rosario e internado,  e o seu  humanismo laico, crítico, feito a base de aluvións e tropezóns de realidade: as_evanxélicas cruzadas, as de Terra Santa e a do 36, a lascivia e_a_crueldade duns Borgia sentados na cadeira de Pedro, hoxe a manda de cregos pedófilos…
Xogo co malentendido, non falo de min senón da fe da miña muller, ora que o da súa fe é só un pretexto para entrar en materia, seica  o meu inicio sexa extravagante e máis axeitado coa intención do escrito sería falar da_súa forma de sentir, da súa voz, ou de calquera dos moitos dons que de natural posesión goza, pero estaríamos no mesmo, un artificio que permite un comezo. Espero non caer no panexírico,  ou na glosa de santa, nestas palabras  que me dan a oportunidade de dirixirme a todos, son un medio para lle cantar.
Oxalá tivese a lírica dos do leixaprén, eu que son consciente do uso e abuso do posesivo miña. Mais con perdón ou sen el, de académicos ou das_de Femen -sabedoras estas que este posesivo ten moito de encofrado ou gaiola-, a rachar pulmóns, todo potencia sen asomo de dúbida ou_timidez, eu berro e propago: miña.
A Elís, miña muller meiga, na noite de moitos excesos de aninovo, con todo meu amor, cun cativo propósito de mellora tras esta quincena xuntos: as nosas esperanzas non se consuman na loita cotián pola supervivencia.


M. Pardo (Galiza).
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Material Círculo Edições

Cá temos todo o nosso material Círculo Edições. Desde Elipse número 1 (já há tempo, esgotado o formato físico) até Elipse número 7. E em livros: Teatro com (No) Meio (do) Oriente de Artur Alonso Novelhe e poesia com Espelho de mim mesma de Cruz Martínez.
A saga sim, que continua!!.
Obrigados sempre!!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

domingo, 8 de novembro de 2015

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa (1924-2013)


De todos os títulos que se podem dar a um livro no qual se queira condensar uma obra, o_mais bizarro é, sem dúvida, o de «Obra(s) Completa(s)». Funéreo por antecipação, ou necrológico quando é o caso de arrumar de vez com o assunto, esse título deveria ser banido em definitivo.
Dos muitos autores – e suas obras -, que se podem convocar em defesa desta opinião, António Ramos Rosa é, indiscutivelmente, dos mais representativos. Nome maior da nossa contemporânea poesia, a sua produção literária contrariou sempre, na sua inesgotabilidade, qualquer veleidade de a fixar num definitivo fechamento, antológico ou “completo”. Com uma produção que ultrapassa os setenta títulos – da poesia ao ensaio (“textos críticos”, como gostava de os designar), a aventura poética de Ramos Rosa consistiu, como poucas, num incessante exercício, na e pela palavra, de restituição dos equilíbrios que a existência, no que em si tem de estritamente mundano, sempre acaba por quebrar: de si a si, aos outros e_ao_mundo. Por isso, Ramos Rosa insistia em convocar o_Real, não a realidade. A realidade é sempre enumerável nas coisas que comporta e, por mais árdua que seja a tarefa, é possível conceber-lhe um fim, um acabamento; enquanto que o que no Real importa é o que nele resiste a deixar-se apropriar pela linguagem, encerrando-se num arrolamento de sentidos. Há nisto qualquer coisa que a mística – ou a_erótica - gosta de associar ao silêncio, a uma ausência em cuja plenitude a palavra se confronta, sabendo-se destinada ao_fracasso. Consciente desta insuficiência, a poesia de_Ramos Rosa soube instaurar, nas palavras do seu dizer poético, uma «pátria soberana». Quer seja o real das coisas, o real do poema ou a_presença real da mulher amada, a sua prolífica produção poética revela – com oscilações, como não podia deixar de ser –, uma crença absoluta no poético como modo privilegiado de aceder a esse real:
 «Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei
 que as piso – duramente, são pedras e não ervas. O vento é
 fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo
 tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão
 os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho,
 porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo
 caminho e descubro o meu caminho.»

 (Sobre o Rosto da Terra, 1961)
A poesia de António Ramos Rosa assume-se como procura de restituir ao mundo (na e pela linguagem), os equilíbrios primordiais. Esta linguagem de restituição avoca a nudez e_a_pobreza de uma linguagem e vivência austeras, como meio para atingir as poucas coisas necessárias e, por isso, elementares.
Aparição discreta, deflagração serena de uma «maravilha obscura», o poema em António Ramos Rosa apresenta-se sempre como uma absoluta novidade, esquecimento sem memória, pura atenção ao absoluto:
 «cada palavra é um acto com que avanço no escuro
 estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
 e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
 Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
 o percurso é uma fábula o desesperado encanto
 de para sempre perdido na maravilha obscura»

 (Ficção, 1984)
A contenção verbal e a condensação de sentido que Ramos Rosa perseguiu desde praticamente o seu primeiro livro, O Grito claro, de 1958, não o arrastou nunca para a_repetição de si mesmo. Muito pelo contrário, de palavras elementares agrupadas em alguns núcleos de sentido, como pedra, vento, espaço, sangue, cinza, sombra, silêncio, etc, a poesia de António Ramos Rosa sempre soube resistir à usura das palavras. É que a_palavra, nesta poesia, toma para si o destino de não se deixar reduzir a um exterior que se sabe inapropriável. Não é que o_estritamente empírico, o social e o psicológico mesmo, não estejam presentes nela. Seria um_exercício por demais fácil –num percurso que atravessou, desde os anos 50, todas as inflexões da poesia portuguesa, nas suas múltiplas manifestações, da social e política à cultural–, encontrar referências a confirmar aquela presença, como coisa a considerar na sua seriedade preocupante. Na produção poética de António Ramos Rosa, o poema não é algo de exterior ao Real, à maneira de acrescento a_remediar falha de sentido, ou ferida a necessitar tratamento. O_poema, com o_gesto pelo qual se faz, quer-se uma pura consonância, em que a questão da_imanência e_da_transcendência, do exterior e do interior, se resolve no interior do poema ele-mesmo:
 «Eu não sei afastar a minha mão da página
 porque não há outro lugar para ela
 ainda que seja o lugar do não lugar
 Eu tenho de segui-la através da penumbra branca
 e ela poderá ser de cal ou de sangue
 ou já a sua própria cinza
 eu vou sempre seguindo-a como se ela conhecesse o seu rumo
 ou fosse escrever o que eu não desejaria escrever»

 (A Imobilidade Fulminante, 1998)

De maneira que, quando um poeta morre, a melhor homenagem que se lhe pode fazer é, pela leitura dos seus poemas – e, no caso de António Ramos Rosa, de maneira particularmente aguda –, sermos efectivamente leitores, isto é, que sejamos tomados pelo êxtase verbal, «liberdade livre», tendo sempre presente que no poema como na vida, o_que há de completo é a sua incompletude, inesgotável:
 «Sobre o seu sono ardente, sobre o seu corpo
 sonoro, esta dança da escrita, esta obscura
 mão. Entre um vaso de sangue e um vaso de cinza
 o poema ergue uma arcada branca. Como a fuga de um pássaro
 a palavra levanta-se dos ombros, o mundo recomeça»

 (Volante Verde, 1980)

Ponta Delgada, Açores, Fevereiro de 2014.

Fernando Martinho Guimarães (Alijó-Vila Real, 1960. Portugal)
De formação filosófica e literária, a sua produção reflecte essa duplicidade. Colaborou em Letras & Letras, revista Vértice e Parnasur (Revista literária galaico-portuguesa), no Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores, no suplemento Artes & Letras do semanário Terra Nostra (Açores), e no jornal Horizonte (Cidade da Praia, Cabo Verde). Cronista na Rádio Atlântida e no jornal Correio dos Açores.
Publicou, entre outros, Ilhas Suspensas (edição bilingue, castelhano/português),  em 2005 Apenas um Tédio que a doer não chega e, em 2008, Crónicas.
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Acrílico

Acrílico



Augusto Fontam (Ponte Vedra, Galiza)
É um autor  esperimental no cine,é na pintura e a poesia...............solitario e furtivo.
Tem um  BLOG  em situaçom transitoria na sua construçom:
augustofontam.com
(Públicado em Elipse núm. 3)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Acrílico

Acrílico


Augusto Fontam (Ponte Vedra, Galiza)
É um autor  esperimental no cine,é na pintura e a poesia...............solitario e furtivo.
Tem um  BLOG  em situaçom transitoria na sua construçom:
augustofontam.com
(Públicado em Elipse núm. 3)

sábado, 10 de outubro de 2015

Aprendizagem da perda

Aprendizagem da perda


É a minha própria casa, mas creio
que vim fazer uma visita a alguém.

Maria Gabriela Llansol

A juvenil primavera das chuvas já não tomba aqui,
a tua morte estranhamente nos nivela nas lâminas
sob o exímio hálito que amadurece a ferida do xisto
com que construímos ocultos falcões no coração,
aprendi à força a tua ausência e a das chuvas
e no entanto pertences-me cada vez mais sob o azul,
o afinco do meu afecto tem uma assombrada presença
dos teus olhos pois é o autêntico afecto do agora,
se o sangue esfria a doce retoma do corpo enxuto
a tua boca de primavera subsistirá infinita como pedra,
pois se te amo me habitas e se me ocupas te guardo,
e porque morta vivendo aprendo apreendendo-te,
a tua presença e a das chuvas é tão verdadeira
que a beleza do amor estará sempre onde te preservo.


João Rasteiro (Ameal-Coimbra, 1965. Portugal)Poeta e ensaísta. É Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Universidade de Coimbra. Possui poemas publicados em várias revistas e antologias em Portugal, Brasil, Moçambique, Itália, Espanha, Finlândia, República Checa, Colômbia, México e Chile. Obteve vários prémios, nomeadamente a «Segnalazione di Merito» do «Concurso Internacional Publio Virgilio Marone» e o «Prémio Literário Manuel António Pina». Em 2012 foi um dos 20 finalistas (poesia) do «Prémio Portugal Telecom de Literatura». Publicou os livros: A Respiração das Vértebras (2001), No Centro do Arco (2003), Os Cílios Maternos (2005), O Búzio de Istambul (2008), Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas (2009), Diacrítico (2010), A Divina Pestilência (2011), Tríptico da Súplica (Brasil, 2011), Elegias (2011), e Pequena Antologia da Encenação – 2001/2013: Poemas em ponto de osso (2014). Em 2009, organizou para a revista Arquitrave da Colômbia, a antologia, intitulada «A Poesia Portuguesa Hoje».
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Sem título 7

Sem título 7


Devorei pulsos em chamas.
Amplamente o rosto envolto por coágulos de sangue luzidio
a trespassarem as veias estanques como a enrolar
as cores existentes
por dentro.
Certo é percorrerem
todo esse ar
que engole o corpo celeste mergulhado
na textura do nosso corpo temporal.
Fico com as mãos
cheias de ossos trancados.
Levanto
a cauda de um espelho
e alongo as vísceras astronómicas,
com bastante força química,
a dilatar numa circulação sanguínea
até a leveza
da garganta se alagar
na sombra líquida
das artérias
contra o alto esquecimento das coisas profundas,
contra os tendões severos a racharem a boca desvairada.
Relembro quando adormecia
sobre todas as
coisas vivas ou mortas
por fora.
Submetia os lábios
a girarem a voz louca
ao lume pedestre
e ardia pelo estremecimento terrível
dos nervos cabeça adentro,
donde múltiplas
estrelas demoníacas
a baterem-se em mim longamente
param, a pouco e pouco, a potência que nunca me sorriu
e vago ou inocente deixo de caber
nos sítios superficiais
à minha volta.
Releio todas as cumplicidades translúcidas
a moverem toda a pele num feixe de pérolas
das salgadas mãos,
aos braços a escorrerem aquele alimento
metidos nas águas sentadas
no túmulo dessas estrelas tubulares.
A destreza deste poema extingue-se quando as unhas
tocarem na carne abaixo, rompendo,
com sinceridade,
a desvastação simbólica
da escrita furibunda
ou silêncio furibundo
a pesar com delicada melancolia.
Ouço o rasgão
do corpo a sangrar
com os tecidos dos versos
a palpitarem porque se nomeiam
e se escrevem dentro
da pulsação ininteligível.
Por cima,
devoro os pulsos em chamas.

Filipe Marinheiro (Aveiro, 1982. Portugal)
«Em Dezembro de 2013, publiquei o meu segundo livro, Silêncios, com a Chiado Editora.
Livro que cria náusea e dor no leitor, ao reviver todas as experiências de vida e de morte e o seu questionamento. Silêncios ondula entre o tom alegre e o melancólico. Evoca uma linguagem de pureza e suavidade que abre vórtices para o tangível e o intangível, entre passagens viscerais até atingir percepção absoluta da beleza inimaginável. Dá ar e_vida, sangue e respiração… e essa respiração é dicotómica: tanto é ofegante como também abranda, dando pois uma_vida e um pulsar do coração a objectos e coisas invisíveis e inanimadas.
Ao percorrer essa beleza que é palpável e impalpável, rasa como que num estilhaço, todos os elementos da natureza e todas as suas paisagens. Uma poesia irrequieta, recalcada, vivenciada numa doçura triste que flutua entre o oxigénio e_o_dióxido de carbono do dia e da noite.
Poesia em estado selvagem, rebelde. Cada poema que faço é uma busca incessante do silêncio definitivo, alegoria para o local da paz. Procuro rebentar com toda as canonicidades de alguma da literatura actual.
Para mim, só existe o acto de escrita enquanto escrita em si, como pensamento livre. Tudo o resto é literatura… e o_acto de leitura e interpretação deve ser igualmente livre, cada pessoa deve tirar a sua própria ilação, procurar os_seus próprios silêncios. O mesmo poema poderá ser límpido ou compacto, dependendo dos olhos de quem o lê.
A poesia é um jogo de estados de espírito… aliás, eu não sei o que é a poesia, não sei defini-la. O acto de escrever poesia é simplesmente um jogo de estados de espírito reflectidos num espelho metido para dentro e para fora. A_palavra e a linguagem são meros instrumentos. Dialogando diariamente com ela, espero continuar sem saber o que é a poesia e muito menos o que é ser-se poeta! Se pela força da vida algum dia souber defini-los, estarei louco ou_morto.»
Página de Filipe Marinheiro no site de Chiado Editora:
http://www.chiadoeditora.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1518:marinheiro-luis-filipe&catid=62:m
(Públicado em Elipse núm. 3)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

No pétreo leito, entre os rais

No pétreo leito, entre os rais

Poema escrito para acompanhar a fotografia
 de Carlos Silva para a publicação digital «munditações»

Porque sou uma mulher coberta de resío
aguardo o sol-pôr espida
Abraçada a um interminável fado
impávida
Coma uma inanimada estatua de sal
projetada cara as vias
dende as janelas brancas de alumínio
Contempla-me! Venho dum naufrágio
Levo gárgulas de pânico na mirada
Acutilo bágoas com os dentes
e empreendo trajetos incertos
Intuo que as memórias
quebram-me coma um vimbio, feble de humidade
Pousam-se-me nos lábios folerpas
e os lobos dos recordos desgarram-me a carne
Sou  uma faquir esmorecida
acima dos caminhos de ferro
Faço-me a dormida
e o zunido do vento rincha-me nos dentes
A chuva desintegra-se em ínfimas partículas
e morre aterecida
no pétreo leito, entre os carris
O  relógio vai cara atrás e o algarismo é um epitáfio
que sucumbe baixo um comboio de mercancias

Cruz Martínez Vilas (Armenteira, 1960. Galiza)
Fundadora de Penúltimo Acto (Acción Poética). Organizadora do ato Círculo Poético Aberto no Café Uf (Vigo). Pertence á Junta Diretiva da Asociación Cultural O Castro de Vigo. Publicou os livros Espelho de mim mesma (Círculo Edições, 2014) e Xerografia em branco e negro (Corpos Editora/Poesia Fã Clube, 2014).
Ganhou, entre outros, o primeiro premio no XXII Certame de Poesía en Lingua Galega Rosalía de Castro, com o poemário Amante tocada pola antropofaxia em 2008, o XXVI Poesía en Lingua Galega Rosalía de Castro, com o poemário Contemplo o proceso inevitábel da despedida em 2012 e o II Certame de Poesía em Língua Galega Manuel María com o poemário O lánguido ocaso dunha dalia.
Blog pessoal: No ollar dun bufo verde. http://noollardunbufoverde.blogspot.com.es/
(Públicado em Elipse núm. 3)

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Confesión

Confesión


Eu creo na muller todopoderosa
que padece baixo a razón de tipos
coma Poncio Pilatos
precursora de ceo e terra
Creo na súa forza que procede
de todo o visíbel e invisíbel
Na que pola nosa culpa foi asasinada
e viviu sendo maltratada
Creo na que non cree
e fai camiño
na que a diario loita
porque o seu reino non terá fin
Eu creo neste tempo
máis que nunca, nas raíñas
que non traerán
descendentes non desexados
a este mundo…
por máis que nos doia

Raquel Pazos Garrido (Vigo. Galiza)
Blog pessoal: auga nos labios.
http://raquelpazosgarrido.blogspot.com.es/
(Públicado em Elipse núm. 3)

sábado, 19 de setembro de 2015

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Haikus

Haikus


Alva de pranto,
riso de cor escura
Dor nos alvedros

Ausência de pam,
tristura no sorriso
Dor acochado.

Curro da casa,
nenos tomados das maos
Luz no paraíso

Gaiola aberta,
luz livre de pássaro
 Canto na rosa.

Mar aberto,
roivém ao pôr-do-sol
 Olhar estántio.

Pam  arramplado,
fachenda no sorriso
Mortes acochadas

Rocha de vento,
pétalas de augardente
Rios de sonhos.

Roivém de sangue,
lua de mulher quebrada
Luz insepulta.
José Alberte Corral (A Corunha, 1946. Galiza)
Criou-se na bairro de Monte Alto, na Corunha, jogando entre casas de um andar e ruas alegres e luminosas. Logo, saiu trabalhar e deu en Venezuela. Participou na fundação da Agrupaçom Cultural o_Facho e militou em organizações clandestinas contra o franquismo, até fugir para o Chile de Allende, Argentina e Venezuela.
Publicou Del amor y la memoria, poesia em castelá (1ª ed.: Ateneo de los Teques-Venezuela; 2ª ed.: Emboscall-Vic) e colaborou com diversos ensaios em distintas revistas de pensamento político em Venezuela. Logo de retormar á Galiza publicou as seguintes obras: Palabra e Memória, poesia (AGAL, Galiza), Acarom da Brêtema, poesia (AGAL, Galiza), Do lusco-fusco, relatos (Baía Ediçons, Galiza), Detrás da palavra, poesia (AGAL, Galiza), Buracos no espelho, relatos (AGAL, Galiza), O livro de barro, poesia (ToxosOutos, Galiza).

(Públicado em Elipse núm. 3)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Caveiras de obscenas dentaduras

Caveiras de obscenas dentaduras


De qué vos rides!
caveiras de obscenas dentaduras
armadas de dentes como navallas afiadas
para pronto lle arrincar ao pobo
anacos de carne a dentelladas
De qué vos rides!
adoradores do príncipe das moscas;
despexades as xentes das súas casas,
do mar, dos campos, das fábricas, da vida
e roubádeslles soños e esperanzas
De qué vos rides!
malditos e mil veces malditos,
adoración nocturna e regueiros de sangue polo día,
violentadores de inocentes, sementadores
de medos bíblicos e escuras enerxías
De qué vos rides!
decretades o estado de sitio e, infames,
asaltades aos humildes con aleivosía;
deixádelos sen sangue, sen alento, sen palabra...,
e aínda lles reclamades a alma na agonía
De qué vos rides!
Sodes praga de cascudas atoando os sumidoiros
na procura de preada e canonxías,
pero fóra o sol agroma e xa o vento debuxa,
no pentagrama do azul, una nova melodía

Manuel Blanco (Galiza).
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A Cidade selvagem

A Cidade selvagem2


A cidade selvagem (II), fotografía digital.


Iria Beltrán Gonzalo (Vigo, Galiza)
«Cabe pensar que é possível descrever uma paisagem pelo aspeto íntimo, desapercebido e marginal das suas superfícies. Estas irregularidades podem, dalgum jeito, deslocar o espaço e converte-lo na culminação ou impossibilidade dum processo, um sobre o que nos sentimos convidados a reflexionar. Obtemos então um risco diferente da realidade. Segui-lo como se for um indício ou documento de algo passado, vem a sugerir um certo labor arqueológico, ainda detectivesco.
Pelo comum, cidades industriais como Vigo, cenário das minhas fotografias, as ruínas evolucionam sem que haja uma excessiva atenção cara elas. Ocupam espaços para o seu esquecimento, ao ritmo dos ciclos naturais. As pedras trabalhadas são ao pó o_mesmo que um papel molhado à lama verde duma fonte: um resíduo social e cultural com o que é_possível estabelecer uma certa identificação pessoal. Aqui surde um problema universal. Trata-se do eu e do outro, em qualidade de natureza interior, familiar, e a exterior, imprópria.»
(Públicado em Elipse núm. 3)

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Cidade selvagem

A Cidade selvagem1


A cidade selvagem (I), fotografía digital.



Iria Beltrán Gonzalo (Vigo, Galiza)
«Cabe pensar que é possível descrever uma paisagem pelo aspeto íntimo, desapercebido e marginal das suas superfícies. Estas irregularidades podem, dalgum jeito, deslocar o espaço e converte-lo na culminação ou impossibilidade dum processo, um sobre o que nos sentimos convidados a reflexionar. Obtemos então um risco diferente da realidade. Segui-lo como se for um indício ou documento de algo passado, vem a sugerir um certo labor arqueológico, ainda detectivesco.
Pelo comum, cidades industriais como Vigo, cenário das minhas fotografias, as ruínas evolucionam sem que haja uma excessiva atenção cara elas. Ocupam espaços para o seu esquecimento, ao ritmo dos ciclos naturais. As pedras trabalhadas são ao pó o_mesmo que um papel molhado à lama verde duma fonte: um resíduo social e cultural com o que é_possível estabelecer uma certa identificação pessoal. Aqui surde um problema universal. Trata-se do eu e do outro, em qualidade de natureza interior, familiar, e a exterior, imprópria.»
(Públicado em Elipse núm. 3)
 

domingo, 30 de agosto de 2015

Viver com cadeias

Viver com cadeias


Derreteu o sol minhas asas abertas
Nom pudem voar tam longe contigo
meus beiços nom atingirom teu universo
nem esparejim suaves carícias no teu ventre
essa via láctea enchida de estrelas
a me indicar o caminho até teu centro
nó que me prende a ti para nascer de novo
para sementar flores com pétalas de cores
que a calor nom murche no tempo da seca
como tenho de chegar até essa doçura
teu rosto sereno que enfria os calores
que morna o espírito e exala frâgrancias
salgadas e doces, entre noites luares
e mares enchidos de ondas erguidas
que chegam à praia  dançando na areia
valses que deixam pegadas eternas
deuses que jogam entre goços e penas
achega-te  até meu cativo universo
singelo e humilde sem ti estou deserta
sem ti quero esvaziar o sangue das veas
pois viver sem ti e viver com cadeias




Belem Grandal (Galiza).
Esta permanente aprendiz de escritora desenvolveu ao longo do tempo um vínculo muito forte e permanente com a Galiza, sua Pátria, e com a sua cultura e a expressom fundamental desta, sua lingua, como dous referentes fundamentais que determinam seu  acontecer quotidiano. Dous aspetos da mesma realidade que alimentam e nutrem a sua existência e sem os quais nom teria qualquer sentido a vida quer no âmbito individual quer no social.  Porque qualquer auto-ódio à Pátria, qualquer menospreço à cultura e qualquer despreço pola lingua nom som mais do que síntomas da baixeza moral e inteletual dum povo, da_sua_minoridade, da sua ignomínia, enfim, da sua falta de dignidade. Porém, malia morar longe da_sua_Pátria, jamais renunciará às suas origens, a sua identidade, além de levar consigo com orgulho à_pertença a_umha_comunidade que desde há muitos séculos tem o firme convencimento de que é preciso atingirmos umha soberania e independência real para nossa naçom só através dumha mudança total deste injusto sistema que até o de agora impediu nossa libertaçom.
(Públicado em Elipse núm. 3)
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Tempo fugidio

Tempo fugidio

Quigeches abrir bem a mao
com grandes ansias por atingir
brilhos que te deslumbravam
poder com o que te seduziam
riqueças que te fascinavam
mais umha mao precisaches
numha já nom tinha cabimento
tudo aquilo que cobiçavas
mas rápido caminha o tempo
nom há  maos que o dé parado
nem por muita vassalagem
a morte fuge do teu lado
e quando a vida se extinguir
ninguém sentirá tua ausência
pois do que cá ficou
outros derom boa conta
de ti só há permanecer
o corpo que  após inhumado
já cheira porque apodrece
nem umha flor nem um beijo
querem os vermes nojentos
nem riqueças que o vento leva
nem maos agora valeiras
coraçons generosos e dignos
som os que prendem  na terra
latejam  forte e se nutrem
do amor, vida e humildade.

Belem Grandal (Galiza).
Esta permanente aprendiz de escritora desenvolveu ao longo do tempo um vínculo muito forte e permanente com a Galiza, sua Pátria, e com a sua cultura e a expressom fundamental desta, sua lingua, como dous referentes fundamentais que determinam seu  acontecer quotidiano. Dous aspetos da mesma realidade que alimentam e nutrem a sua existência e sem os quais nom teria qualquer sentido a vida quer no âmbito individual quer no social.  Porque qualquer auto-ódio à Pátria, qualquer menospreço à cultura e qualquer despreço pola lingua nom som mais do que síntomas da baixeza moral e inteletual dum povo, da_sua_minoridade, da sua ignomínia, enfim, da sua falta de dignidade. Porém, malia morar longe da_sua_Pátria, jamais renunciará às suas origens, a sua identidade, além de levar consigo com orgulho à_pertença a_umha_comunidade que desde há muitos séculos tem o firme convencimento de que é preciso atingirmos umha soberania e independência real para nossa naçom só através dumha mudança total deste injusto sistema que até o de agora impediu nossa libertaçom.
(Públicado em Elipse núm. 3)
 

sábado, 22 de agosto de 2015

Carga

Carga


Carga, Fotografia digital.

Xosé Lois Gil Magariños (Rois, Galiza)
Fai parte da «Corporación Semiótica Galega», http://www.cosega.org.
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Desafiuzamento

Desafiuzamento


Desafiuzamento, fotografía digital.



Xosé Lois Gil Magariños (Rois, Galiza)
Fai parte da «Corporación Semiótica Galega», http://www.cosega.org.
(Públicado em Elipse núm. 3)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Papamóbil

Papamóbil


Papamóbil, fotografía digital.


Xosé Lois Gil Magariños (Rois, Galiza)
Fai parte da «Corporación Semiótica Galega», http://www.cosega.org
.
(Públicado em Elipse núm. 3)
 


sábado, 8 de agosto de 2015

Algures entre o branco

Algures entre o branco


O escritor inventa uma casa
uma mulher desenvolta
mas também os cheiros
os pequenos ruídos da madeira.
a solidão aperta essa mulher,
rasga-lhe gestos incompletos. no
café, aquela música que não queria
ouvir soa de forma límpida
remexendo-lhe o passado.
sai para a rua revoltada: «como
é que isto ainda dói
desta forma?» dir-se-ia
que chora. e é neste momento
que o escritor se emociona,
esquecendo por momentos que
se trata apenas de uma história
em que ele também é
personagem. sorri do seu
devaneio mas deixa-se ficar
no branco quando a mão
que segura a caneta, subitamente,
o deixa de fazer.


Rui Tinoco (Porto. Portugal)
Psicólogo, vive no Porto. Tem publicados dois libros de poesia: O Segundo Aceno (Edições em Pé, 2011) e Era Uma Vez o Branco (Volta d'Mar Edições, 2013). Participou em diversas revistas literárias. Mantém o blogue Ladrão de Torradas:
http://ladraodetorradas.wordpress.com/
(Públicado em Elipse núm. 3)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O raro par

O raro par


o escritor bate à porta,
pergunta: «é aí
que mora o leitor?»
é uma indagação invulgar,
um pouco desesperada até.
ninguém lhe responde.
no prédio
seguinte ouve até uma
resposta desagradável:
«não, não quero comprar
nada». enfim, não
é disso que se trata. espero
que, para este texto,
alguém desse lado perceba
o que estou a dizer.
é aí que mora o leitor?



Rui Tinoco (Porto. Portugal)
Psicólogo, vive no Porto. Tem publicados dois libros de poesia: O Segundo Aceno (Edições em Pé, 2011) e Era Uma Vez o Branco (Volta d'Mar Edições, 2013). Participou em diversas revistas literárias. Mantém o blogue Ladrão de Torradas:
http://ladraodetorradas.wordpress.com/
(Públicado em Elipse núm. 3)

domingo, 26 de julho de 2015

Coração andarilho

Coração andarilho


o gesto pela metade
apavorada pelo instante
a entardecer de fuga
o longe pela vontade
nenhum amparo subtrai
um coração desafinado
e se ascendesse à condição
de nuvem   de flor   de pássaro
enxotava a montanha do corpo
grávida de amores indecisos
consentia deus pelo milagre
de revelar-se na tranquilidade
de um rosto adormecido

(Publicado em Elipse núm. 3, junho de 2014)


José Fontes Novas. (Portugal)
José Fontes Novas sabe onde nasceu mas desconhece a data. Herdou o nome de um lugar «Fontes Novas» hoje, cheio de ruas com nomes, casas e números. A terra continua a ver o mar. Quanto ao «José» é do Peixoto.
Publicou o livro de poemas, O Sol das Mãos (1999). Em parceria com o poeta Fernando Nunes, publicou O Mar Pintou de Azul (2010). Pelo meio participou em várias antologias de poesia. Um dia ou quem sabe uma noite conto mais.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Elipse número 6 em papel!

O trabalho continua e como sabem já vamos no número 6. Agora apresentamos o número SEIS mas, em papel. 

A que é linda!!

As livrarias Cartabón e Andel de Vigo já têm a revista. Também, podeis adquiri-la fazendo a encomenda ao nosso e-mail e será enviada por correio postal à vossa morada. Além disso, para os que vivais em Compostela, achegar-vos a Pedreira e Ciranda e perguntar lá por Elipse. 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Elipse número 6, já chegamos à sexta revista!!


Car@s amig@s,

 A nossa felicidade abrange-se com este número, multiplica-se por  três, a tríade que nos conforma. Pois chegar ao número seis é um feito complexo ou difícil nos tempos que correm. Agora, além de autoras/es da Galiza, Portugal, Brasil e Moçambique, acrescentamos mais um país...Angola. Sempre gratos pelo apoio e o ânimo!!.

Saudações poéticas
Alexandre Insua, Cruz Martínez e rosanegra.


Contamos com @s autoras/es:

Da GALIZA: Adriám Vasques, Augusto Fontam, Alfonso Díaz, Carmen Pereira, Carlos Da Aira, Concha Blanco, Iolanda Aldrei, Xúlio López, Lepota L. Cosmo, Manuel Bonabal, Manuel Blanco, María Jose Fernández, Nesto Fernández, Paco Barreiro, Rochi Nóvoa, Sabela Carballo e Victoria Reboiro.

De PORTUGAL: Agostinho Magalhães, Fernando Pereira, Fernando Fitas e João Rasteiro.

Do BRASIL: Andréa do Nascimento Mascarenhas e Samuel da Costa.

De MOÇAMBIQUE:  David Augusto (Upassageiro), Ildo Ângelo e Narciso Balói.

De ANGOLA: Fernando Mariano dos Santos.

domingo, 28 de junho de 2015

É difícil



It is difficult
to get the news from poems
         yet men die miserably every day
                     for lack
of what is found there.


É difícil
saber das novas através da poesia,
        e aínda assim todos os dias morre gente
                     pela ausência
do que se encontra nela.

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

William Carlos Williams (1883-1963)
Poeta estadounidense "Asphodel, That Greeny Flower." Collected Poems


 Tradução de Adrían Magro (A Corunha. Galiza)
«Foi nado na Corunha polos seus pais, gente do Val d'Eorras. Além de escrever ficções, dá aulas de línguas e traduz ou isso tenta. Ah, e tem um blogue e é este:
adrianmagro.tumblr.com».

terça-feira, 23 de junho de 2015

Frondosa, fogosa, folhosa, funde-se a fenda num desfolhar

Frondosa, fogosa, folhosa, P&B. Fotografia digital.

Do ventre fumoso das rochas
Irradia toda a luz de um acordar.
Recortes ofuscos, mil tochas
Fulgirão ao nosso passar.
Por fundir assim o baixo fundo
Findarás por me fecundar
E fundir o meu teu profundo
Segundo a brisa que virá para ficar.
Tenho círculos de fuga
E rectângulos para forjar,
O meu triângulo é cor rubra
No teu quadrado de fabricar.
Frases, traços e compassos
Afrontarão com força o entronar.
Coroar somente a mente com passos
Que dizem quem neles está a andar.
Quando os fulgores do estio
Bravo nos vierem enfim chamar
Rasgaremos curvas no pousio
De que é feito esta terra à beira-mar.
Lânguidos, cobertos de seiva
E cal. As gerações vir-nos-ão saudar.
Calha o sol & infinito que nos enfeita.
Calhando, ainda haverá muito para contar…


(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Pedro Polónio (Lisboa, 1967. Portugal)(Foto) Trabalha nas áreas da informática. Dedica-se também à fotografia, com trabalho nomeadamente em fotografia de cena e fotojornalismo. Web pessoal: http://pedropolonio.weebly.com/index.htm
Sara Évora Ferreira (Lisboa. 1981. Portugal)
Nasce em 1981 e desde tenra idade que escreve poemas, tendo recebido alguns prémios literários. É psicóloga, psicoterapeuta e paralelamente tem desenvolvido trabalho em várias áreas artísticas, como o teatro, a dança, a música e o desenho. Edita poemas em colectâneas de novos autores, jornais e em magazines de artes e letras. Há mais de uma década conhece o seu parceiro J. C. numa livraria, ao redor da poesia, e desde então os seus percursos pessoais e artísticos confluem. Depois do 11 de setembro de 2001, lançam-se na dinamização de recitais públicos de poesia de intervenção em serões agitados nas noites do Bairro Alto. Um dia, resolvem fazer um volte-face de voz própria.
www.volte-face.conflitoestetico.com



sexta-feira, 19 de junho de 2015

Levou-s'a velida

Levou-s'a velida

B 1188, V 793
LP 134, 5

[Levou-s’aa alva], levou-s’a velida:
Vai lavar cabelos na fontana fria.
 Leda dos amores,
 Dos amores leda.

[Levou-s’aa alva], levou-s’a louçana:
Vai lavar cabelos na fria Fontana.
 Leda dos amores,
 Dos amores leda.

Vai lavar cabelos na fria Fontana;
Passa seu amigo que [a] muit’amava.
 Leda dos amores,
 Dos amores leda

Passa seu amigo, que lhi bem queria:
O cervo do monte a augua volvia
 Leda dos amores,
 Dos amores leda

Passa seu amigo que a muit’amava:
O cervo do monte volvia [a] agua.
 Leda dos amores,
 Dos amores leda
(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)
Pero Meogo. (sécs. XIII-XIV)
Jogral galego de que não se tem quase informação. Sabemos que deve ter sido contemporâneo do rei D. Dinis, já que este rei-trovador compôs uma cantiga de seguir que está relacionada com cantiga de Meogo Levou-s´a velida e que permite a reconstrução da lacuna textual.  Conservam-se nove cantigas de amigo da autoria de Meogo.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Sem título

Panamá, Paitilla. Fotografia digital.
Derramo edificios húmidos polos ollos
e con eles limpo os mocos que saen con carie
para vernizar as cancelas das capelas con carriza
Entre as gretas que deixan os trevos de catro follas
sego as lagañas dos seus portais sen número
retello as camas dos cuartos de defuntos
e con elas lapido as patenas das comuñóns
Sirvo nelas as cascas das olivas maceradas
muxindo a pel dos pandeiros viúvos
Derramo un lar de leña murcha edulcorada
e con el limpo o queixo que xa ten barbas
para golsar o pus das hipotecas con felpudo
Entre as gretas que deixan as pegadas das pantuflas
semento cobiza do mercado de avaros
esparexo vermes para a próxima necrolóxica
e con eles gratino os doces da sobremesa
Sirvo con eles grolos de extremaunción
nesgando a lingua do toxo verde
(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Moncho Iglesias Míguez (Vigo, 1974. Galiza)
Licenciou-se em Filologia Hispânica e está a fazer a sua tese de doutoramento comparando contos de tradição oral palestinos e galegos. Ministra aulas de espanhol na Universidade de Sichuan e, anteriormente, na Universidade de  An-Najah, em Palestina, trabalho que combina com a escrita literária e jornalística, e com a tradução. Colabora habitualmente com revistas como Tempos Novos e Dorna e no jornal digital Praza pública.
Entre as suas obras figuram títulos como o poemário Oda ás nais perennes con fillos caducos entre os brazos (2007), o romance Tres cores: azul (2009), os poemários Pedras de plastilina (2012) e Abuelita-Aboiña (2013) ou as traduções desde o hebreu O condutor de autobús que quería ser deus (2006) e Saudades de Kissinger (2011), e de Mahmud Darwix, a partir do árabe: Carné de identidade (2012).

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Lua no vento

Lua no vento


Mae, tenho medo
de que tes medo filho?
tenho medo da noite
da lua, da nuvagem,
e do vento que lá fora
sopra
tenho medo do dia
que há vir e nom conheço
tenho medo do demo
que joga com os meus
desejos
tenho medo do mar
que ao se enfurecer
ergue ondas enormes
que chegam con força à terra
e nom dorme
tenho medo do sol
porque pode queimar
nom deixa de quentar
e o mar nom chega
para apagar sua teima
tenho medo da escuridade
porque nela nom vejo
os olhos que despreçam
meu universo
tenho medo ao falar
porque as minhas palavras
há quem nom as compreende
nem ama
tenho medo dos nevoeiros
que embebedam o ar
e impedem ao galo no
amencer cantar
tenho medo da noite
e do seu silêncio obscuro
que ofusca meu olhar
tenho medo da chuva
que molha meu rosto
escorrega na pele
enfriando meu corpo
tenho medo das sombras
e das pantasmas
que bailham danças
na madrugada
nom tenhas medo neno
nom há nada na noite
que te poda fazer mal
nem o mar, nem nevoeiros,
nem o sol com seu quentar
nem a lua que vai no vento
todos os dias caminar

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Belem Grandal (Galiza)
Esta permanente aprendiz de escritora desenvolveu ao longo do tempo um vínculo muito forte e permanente com a Galiza, sua Pátria, e com a sua cultura e a expressom fundamental desta, sua lingua, como dous referentes fundamentais que determinam seu  acontecer quotidiano. Dous aspetos da mesma realidade que alimentam e nutrem a sua existência e sem os quais nom teria qualquer sentido a vida quer no âmbito individual quer no social.  Porque qualquer auto-ódio à Pátria, qualquer menospreço à cultura e qualquer despreço pola lingua nom som mais do que síntomas da baixeza moral e inteletual dum povo, da sua minoridade, da sua ignomínia, enfim, da sua falta de dignidade. Porém, malia morar longe da sua Pátria, jamais renunciará às suas origens, a sua identidade, além de levar consigo com orgulho à pertença a umha comunidade que desde há muitos séculos tem o firme convencimento de que é preciso atingirmos umha soberania e independência real para nossa naçom só através dumha mudança total deste injusto sistema que até o de agora impediu nossa libertaçom.

domingo, 7 de junho de 2015

Amaranta non ten nome

Amaranta non ten nome

 (Villanesca)

Amaranta abriulle as pernas á noite,
cun laio mudo como melodía;
cando aínda o sol asomaba polo horizonte.
Escondía no seu rostro unha malleira de morte,
despois de se decatar de que o seu amor tan só mentía;
Amaranta abriulle as pernas á noite.
Pechou os ollos, tragou saliva, e intentou ser forte,
narcotizando o corpo e a mente contra aquela agonía;
cando aínda o sol asomaba polo horizonte.
Renunciou a pensar no fado que unha sente,
sabendo que ao cabo das horas ata o demo a penetraría;
Amaranta abriulle as pernas á noite.
O querer da súa vida pasou ben quente,
cunha violencia que nin a máis curtida soportaría;
cando aínda o sol asomaba polo horizonte.
As bagoas inundaron os recordos da súa mente,
afogando consigo un devir de porquería;
Amaranta abriulle as pernas á noite,
cando aínda o sol asomaba polo horizonte.


(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)


 María Alonso Alonso. (Vigo. Galiza)
«Son unha das malas herbas que abrollou en Matamá, na veciñanza de Vigo, nunha primavera ao cabo da infame década dos setenta; aínda que nestes momentos estou a vivir en Edimburgo, lugar do que vou e veño aos poucos para intentar paliar a saudade que acompaña a morriña por estar lonxe da miña xente. Despois de estudar filoloxía e de rematar os meus estudos de posgrao na Universidade de Vigo, comecei a revisar algúns textos que tiña esquecidos no cartafol da miña memoria, dándolles forma e enviándoos a diferentes revistas de creación e a algún que outro concurso literario. Un dos meus relatos, “María a Lobiqueira”, foi galardoado no 2012 cun dos accésits do Modesto R. Figueiredo, o que axudou a que non perdese a arela por isto da escrita.»  E-mail:
malonsoalonso@uvigo.es.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Três poemas

Três poemas


É incessante o som dos cascos que antecede a tua chegada. Nesse tempo de aguardo, o sono queima pelas bordas. Eu masco vidros, e sorrio hulha, em meio ao cerco das gardênias. Prometo: desnudar-me-ei para ti, e a minha inocência não cairá com meu vestido.

***

Não volto atrás. Havia o Cristo torturado pelo amor, a mãe transformada em arquétipo da morte, o silêncio que o pai exalava à hora do jantar. Eu desejava essa trindade fincada no garfo, como quem fixa a diáspora nos azulejos de um hospício.

***

Trouxe o sangue à tona, sacralizei a navalha na ferrugem, e conspurquei, com a honra, o leito dos meus irmãos. O mal que crescia em mim como raízes, podaram-no, para que só eu sentisse, no âmago, as arestas: hoje inquietam menos do que a dúvida. Qual deles não praticou o vitupério? Quando me impuseram as suas virtudes condenaram-me à minha verdade.

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Camila Vardarac (Brasil)

sábado, 30 de maio de 2015

Canela

Canela

Para Rosa,
a estrela que ilumina o meu coração.

O sabor da tua pele
perfumada de canela e amorodos
entala a minha língua
e perco-me entre os teus cabelos de bronze
como um viageiro
nos caminhos da memoria extraviada.

Os pinheiros acompanham-me
nesta soidade imperfeita
e as formigas, curiosas,
observam-me prender outro cigarro.

Como unha cidade aniquilada
pelo passo continuo do sol
onde percorri novas e velhas ruas
animadas todas,
da cidade que olha contra o mar
dos sol-pores azuis e laranjas
e unha luz concutida, regular e constante.

Assaltas os meus pensamentos á noite
nos segundos mais inesperados.


7 de setembro de 2012
(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Alexandre Insua Moreira. (Vigo, 1978. Galiza)
Foi colaborador na edição das revistas Panta Rei, Sirxe, e Cen Corvos de Xallas e coordenador editorial da revista Máis que palabras. Pertence á Junta Diretiva da Asociación Cultural O Castro de Vigo. E é o delegado para Galiza da revista Lavra... Boletim de poesia (Porto).
Livros coletivos: 18 - Unha antoloxía de poesia galega-portuguesa (2012), Doces Loucuras - Louvor aos sorrisos. Colectânea Poética (2013), Meis é poesía (2013).
Está Licenciado em Filologia Galega e em Filología Hispânica, e especializado em Linguística Geral pela Universidade de Vigo. Blog pessoal:  Impostura de fumador
http://imposturadefumador.blogspot.com.es/

terça-feira, 26 de maio de 2015

Olhadas

Fotografia digital

«A regiom do rio Omo em Etiopia é umha das mais ricas do punto etnográfico de todo o mundo, nela habitam gentes Mursi, Karo, Surma, Hamer, Daasenech, etc... A fauna e as paisagens da regiom também som de gram valor.

Lamentávelmente os imperialismos européio   e asiático podem estar ponhendo em perigo estas culturas. Compre dizer que estando perto do Sudám do Sul  e o facto de ser um lugar remoto onde o estado etiope tem pouca presença, fai que as tribus estejam armadas e seja “normal” que portem os seus onipresentes Kalashnikov.

A escena da foto acontezeu quando realizava umha caminhada cedo pola manhá e atopei esta aldeia Karo quando estavam a fazer o pequeno almoço».

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)


Alfonso Díaz [Fóni]. (Ponte Vedra, Galiza)
Tem realizado viagens por gram parte da África, Asia e América. Aficionado à fotografia de viagens e de natureza.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Mundo invisível

Mundo invisível. Fotografia digital.

Na hierarquia do mundo invisível
criaturas mágicas de tronco ardente
calcando os pés sobre o musgo de lava
irrompem para o banquete à hora marcada.

A bruma dos dias já vai avançada
no cume redondo de outras profecias
a música dança no silêncio que brame
levando para longe o sonho terrível.

Deuses e pátrias dormem esquecidos
crepitando no lume brando das obras
ouvem-se à distância os longos gritos
dos Homens que ansiosos as descobrem.

A fé que os salve das coisas belas e boas
a visão que os cubra e os proteja
na Terra que deles reclama toda a seiva
não há lugar para quem não acredite.

O mundo invisível desperta
para a vida que merece ser vivida
na fogueira dos mastros incendiados
pela copa dos feitiços à espreita.

(Publicado em Lisboa núm. 2, fevereiro de 2014)

Pedro Polónio (Lisboa, 1967. Portugal)
(Foto) Trabalha nas áreas da informática. Dedica-se também à fotografia, com trabalho nomeadamente em fotografia de cena e fotojornalismo. Web pessoal:
http://pedropolonio.weebly.com/index.htm
J. C. Jerónimo. (Lisboa, 1973. Portugal)
Psicoterapeuta, poeta e declamador, nascido em 1975. Fundador da revista Acumen, com 5 fanzines editadas. É responsável pela tradução para a língua portuguesa de autores da escola surrealista francesa e da geração beat. Poeta convicto, J. C. dinamiza projectos artísticos e envolve-se na constituição de associações culturais, enquanto membro fundador. É psicólogo e desde então dedica-se a pensar e a descobrir novos universos. Com a Sara repensa-os e redescobre-os, e os dois propõem-se desbravar caminhos inauditos nas lides poéticas. Juntos, formam uma das duplas de autores mais inventivas da nova poesia contemporânea portuguesa.
www.volte-face.conflitoestetico.com

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Ronda dos traidores

Ronda dos traidores

Povos traídos já o foram muitos.
De gregos a romanos a mais de muitos centos
todos foram incorporados no grande índice
dos bichos que sentiram a lâmina na goela,
ou a entrar nos flancos para que não pudessem
ser o quanto queriam nos seus sonhos débeis.
O mal é esse mesmo, que possa a traição
grudar-se aos ossos e os mentecaptos
se sirvam dela nos banquetes férteis
em que de lampreia e faisão se embrutecem,
enquanto nos baldios a pobreza cresce.
Contudo, os brutos serão sempre os outros,
que ao longo da história se omitiram
por um gesto em falso ou um maligno passo,
ou até mesmo um decreto do senado.
Ou dormiram demais, ou no seu sono leve
trabalharam muito para que a indulgência
lhes custasse a família, os filhos, o sustento
e fossem retalhados como cordeiros mansos
que das regiões claras só podem conhecer
a escuridão infrene que os aniquila.
Traídos os traidores da ousadia
de permanecerem traídos para sempre
melhor seria que sangrassem dos ouvidos
ou que a boca de raiva lhes espumasse
pelas lídimas trafulhices de que são vítimas.
Ainda assim, não se passa nada. À vida
vão uns tantos para sofrê-la, a ranger
os poucos dentes ralos e a pôr as unhas
a salvo de qualquer lima, que está caro
o aço e nada é mais diverso
do que querer-se algo e nada se fazer
para que alguma coisa mude para que tudo
fique tal como estava antes do que se quis
mudar no âmbito das pirâmides
ou dos jardins suspensos. Traidores, portanto,
é o que mais há nas longas multidões
que os povos significam, ajoelhadas
bestas que aqui ovacionam e mais além
irão querer linchar sem que para isso
tenham paixão bastante. Dúvidas há
de que sejam homens, ou que da sua
espécie a humanidade seja em seu ardor
e escala de ansiar o pão, a paz, a liberdade,
sem que, no entanto, alastrem pelo mundo
a reclamar a luz que deveria pertencer-lhes.
E ainda falam do tempo irrepetível,
dos becos sem saída, das vozes inaudíveis,
da coroação do espanto, dos mares repletos
de fúrias e desmandos. A uns e outros todos
se vão traindo, cheios de culpa mas nunca
com remorsos de enquistarem assim os corações
nefastos, demasiado puros da pulhice alheia
que só deles mana. Não se lhes cansa o olhar
das grades  que em volta  assestam
as prisões que para si criaram,
danados de requebros não mais do que servis
à espera das migalhas que irão cair
do espavento dos bolsos que alguns benévolos
premeditadamente planeiam denegar
à fome secular e à calamidade.
Melífluo é o combate marcado por recuos,
surtos de aleivosias, suplicações, errâncias,
e a boa-fé fenece entre os traídos, prostrados
sobre a lama que os seus pés abriram
sem que de nada mais se arroguem que a traição
que lhes corre no sangue e lhes domina o espírito.
A uns e outros se abatem pelas costas.
Os de cima os de baixo e os de baixo
os de baixo, que é sempre a cair
que há-de ficar-se em coisas de ignomínia,
ou nas sujeições ignóbeis da desgraça,
ou no destemor que alguns da covardia
sacam, havendo sequazes e facas disponíveis,
usadas com perícia  a perorar
as circunstâncias graves em que se vive
num território de recursos parcos.
Traidor é sempre quem trair se deixa,
atento ou desatento à luz dos anos,
pasmado ou exaltado no seu entusiasmo
de ser sem terra, ou ter sido dela
há muito expulso, ou ser seu pasto
em vida como o será quando for morto,
a privar com os vermes que, afoitos,
em cada aresta sopesam o momento
para abocanhar a carne das ovelhas
que, cegas e ordeiras, transitam
no foco de infecção  para que alastre
a irredimível doença de que todos
sofrem. Ah, os rostos giram
nas quadraturas dos séculos, vãos uns
ceder e outros descompor-se, outros
empenham a palavra e voltarão com ela
atrás,  pelo caminho ínvio, ainda outros
murmurarão a surdina entorpecente
de um rumor, de uma conjura, de um juro
que se cobra, de uma mácula caída
sobre a melhor nódoa, de uma arma aperrada
contra o dilecto amigo, de um rei que abjurou,
de um crente que se fiou, do alento
de um homem que a si mesmo se traiu,
assim como traiu os seus mortos antecedentes
e consequentes, em velhas e novas gerações 
de traidores no comum descampado
dos tempos indizíveis, coberto de fósseis e sangue
ressequido. Ah, todos traímos a infância, o menino
selvagem, o castanheiro espesso, o regaço
de quem nos olhou  pela primeira e pela última
vez como um filho querido e nos deixou partir
para a imobilização, a providência, o sossego,
a contagem incólume dos cabelos,
o beijo na face e a mão sobre o ombro,
a candura aos portões da Babilónia, os catorze
mil cegos que Samuel viu arrastar-se
nas montanhas da Macedónia a caminho de Ohrid,
vítimas estes da traição que a fereza é.
É desse lixo que os monturos se ampliam,
traição sobre traição sem mais remédio
do que ver o mundo a dissipar-se nos resquícios
da compaixão, do nojo, da bondade.
E no horizonte crespo o deserto amplia-se,
passam os comboios mas tudo está perdido,
o mar adensa-se e as traições
progridem, obsessiva e suja
a noite cobre tudo a ocultar quanto se fez
de criminoso e baixo e se sepulta nos bustos
de estuque que as galerias mostram,
um rol de heróis que a própria mãe venderam,
sem mais consolo do que viverem disso,
por um domínio, um lugar, uma quantia,
uma vara de porcos, castrados e cevados.

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Amadeu Baptista. (Porto, 1953, Portugal)
O seu primeiro livro de poesia, As Passagens Secretas é de 1982  - publicou até à data mais de 30 títulos, entre poesia, prosa e livros para a infância. O seu original «Um pouco acima da Miséria» foi, em 2013, Prémio de Poesia Cidade de Ourense.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Janela Aberta, umha abertura para o ar e para a luz

Janela Aberta, umha abertura para o ar e para a luz


Era sabedora do talento criador de J. Alberte Corral como poeta mas agora descubro-o como criador de estórias. A sua escrita conta de jeito ardente e à vez melancólico a realidade múltipla dos homens e mulheres que habitam nos seus relatos onde ficçom e história estám entreverados para constituir um universo cheio de humanidade.
Porém, muitas vezes essa realidade é distorcida para nos conduzir a espaços oníricos ou mágicos nos que ecoa a mitologia galega. Na descontraída escrita das estórias de Janela Aberta o ser humano é a sua raizame. Som narraçons embebidas da experiência e da observaçom que possuem umha olhada onde o sonho e  a realidade se vencelham numha inventiva memória que se destorce polos territórios do humor e a ternura.
Além de umha grande sinceridade na sua escrita, percebe‑se que Corral Iglesias conhece bem os universos da sua narrativa, suas imagens som nuvens de galáxias mas que estrelas, graças a sua pluridimensionalidade, venhem sendo parte essencial do próprio mirar e pensar do escritor.
A psicologia das personagens, evoluindo e fazendo-se notar, dam-nos a ideia de onde e porquê se produz a estória. Como observador atento sabe das circunstancias com as que nos toca coabitar, em muitos dos textos agromam imagens da dureza na que se desenvolve a vida dos humildes.

Sem nunca abdicar da ficçom, percebe-se na narrativa de Janela Aberta umha realidade recriada como imaginário dos protagonistas. Existências nas que o autor se afunde, mergulhando-se nas constantes essenciais do homem: dignidade, esperança, tristura, valor... húmus sustentador das personagens que agem nos relatos.
Vivem, habitam em situaçons às vezes duras, às vezes prenhadas de senhardade ou misturadas ambas; construindo-se assim uns textos prenhados de humanidade, nos quais a certeza pungente do cotiám nom sonega a irmandade imprescindível e necessária para a emancipaçom dos párias da Terra.
Se o único crime de todo autor é a mediocridade, nada da mesma, podemos afirmar sem nos trabucar, existe no dizer de Corral Iglesias.
(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)
Carme Terrafeito Aenlhe

domingo, 10 de maio de 2015

Liberdade

Liberdade


Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Paul Eluard
Na lembrança de Manolito Belho Parga

Necessito-te, chamo por ti desde esta escuridade, em cada instante da minha existência, sonho que agromarás como vermelha papoula e todo me é mais aturável. Sei-no, sei que te alcançarei. Nom me perguntes, sei-no e avonda.
Acima, pola pequena luzeira, alvisco a claridade do mencer, entra devagar, amodinho, como se nom me quisesse espertar. A luz sempre é mais formosa no seu nascer...., às vezes penso que é a única beleza que nos deixárom: os roivéns e os lubricáns abraiam-me, sempre som novos e diferentes. Que nom saibam desta formosura! roubariam-no-la como fizérom com todo; para eles só tem sentido o dinheiro e o poder. Todo no-lo saqueiam, a mocidade, a inteligência, a vida...., só ossos e músculos nos deixam, ossos para suportar e músculos para trabalhar...
Lembro-me como se o estivesse fazendo agora mesmo; ela já estava na cozinha havia um bom pedaço, aguardava por mim para me dar o almoço... Saim da casa, levava o compango na velha tarteira para logo o quentar ao meio-dia. Com a friagem caminho de pressa cara a paragem do autocarro...
Alto ou disparo! disparou o mui filho da puta. Depois os socos, os baloucaços, as patadas, o interrogatório.... Agora aqui.
Ouço os passos, sempre venhem olhar polo buraco da porta ao findar o toque do cornetim; e som filhos da mesma mae...! Da fame..., porcos....!
Apesar de todo, acadarei-te, sei-no. Todos nós, os párias, faremos-te nossa e jamais nos abandonarás: 
Liberdade.

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014, do libro Do lusco-fusco)

José Alberte Corral (A Corunha, 1946. Galiza)
Criou-se na bairro de Monte Alto, na Corunha, jogando entre casas de um andar e ruas alegres e luminosas. Logo, saiu trabalhar e deu en Venezuela. Participou na fundação da Agrupaçom Cultural o Facho e militou em organizações clandestinas contra o franquismo, até fugir para o Chile de Allende, Argentina e Venezuela.
Publicou Del amor y la memoria, poesia em castelá (1ª ed.: Ateneo de los Teques-Venezuela; 2ª ed.: Emboscall-Vic) e colaborou com diversos ensaios em distintas revistas de pensamento político em Venezuela. Logo de retormar á Galiza publicou as seguintes obras: Palabra e Memória, poesia (AGAL, Galiza), Acarom da Brêtema, poesia (AGAL, Galiza), Do lusco-fusco, relatos (Baía Ediçons, Galiza), Detrás da palavra, poesia (AGAL, Galiza), Buracos no espelho, relatos (AGAL, Galiza), O livro de barro, poesia (ToxosOutos, Galiza) 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Oliveira

Oliveira


A sua cor era a da canela-oliva, vinhera de Vigo, o seu nome era Oliveira. O homem conhecera-a num café onde as mulheres bailavam entre elas tangos. Naquela mesma tarde ameiroara-a com um gato vermelho de meninhas púrpuras e perpendiculares. Juntos festejárom o seu encontro no dormitório de cristais azuis até o mencer. Desde aquela habitavam um noutro como se fossem um só corpo.
—Nunca ouvim cantar os teus olhos. Comentou-lhe a mulher.
Ele ergueu-se e chimpou-se na piscina desportiva do quarto e fizo uns longos até complementar os seis quilómetros. Ao sair começou a cantarolar as baladas etruscas que conhecera com o seu pai na taberna de Euleuterio, antigo chofer de Al Capone. Os seus olhos abrírom-se como lumieiras para contemplar a Oda, antiga odalisca do Sultám de Ispaha. Oliveira, espida começou a dançar, o seu corpo parecesse esculpido só para interpretar os cantos de Artabro.
—Nom deixes de cantar, meu amor. Demandou a bailarina.
Os pinheiros rumorosos conformárom a grande orquestra de jazz e as penedias faziam coro com os seus murmúrios. O corpo nu no seu dançar converteu-se no arco da velha mais fermoso que pudesse ser visto, enquanto o recendo salgado das algas marinhas enchia  o universo do salom. Um unicórnio afgano, todo preto, servia vinho branco nos copos das perlas do rocio. Nem os diamantes de Ubuntu possuíam tanto fulgor como havia naquele cristal de orvalho onde barquinhos de papel iniciárom a navegaçom oceânica, todos eles tinham nome de mulher...

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

José Alberte Corral (A Corunha, 1946. Galiza)
Criou-se na bairro de Monte Alto, na Corunha, jogando entre casas de um andar e ruas alegres e luminosas. Logo, saiu trabalhar e deu en Venezuela. Participou na fundação da Agrupaçom Cultural o Facho e militou em organizações clandestinas contra o franquismo, até fugir para o Chile de Allende, Argentina e Venezuela.
Publicou Del amor y la memoria, poesia em castelá (1ª ed.: Ateneo de los Teques-Venezuela; 2ª ed.: Emboscall-Vic) e colaborou com diversos ensaios em distintas revistas de pensamento político em Venezuela. Logo de retormar á Galiza publicou as seguintes obras: Palabra e Memória, poesia (AGAL, Galiza), Acarom da Brêtema, poesia (AGAL, Galiza), Do lusco-fusco, relatos (Baía Ediçons, Galiza), Detrás da palavra, poesia (AGAL, Galiza), Buracos no espelho, relatos (AGAL, Galiza), O livro de barro, poesia (ToxosOutos, Galiza) 

sábado, 2 de maio de 2015

A roda imorredoira

A roda imorredoira

A roda imorredoira. Fotografia digital

A imagem geométrica, forma uma circunferência
da cor do vinho com arrecendo a traça
É um passado-presente com um sentido que xorde
num isolamento silandeiro na voz do ar

Na madeira errante, escreveu-se a historia
da noite e do amanhecer, com letras perenes
nas árvores genealógicas

Pousada na pedra ainda resoa o som do carro
entre os caminhos, aquelas sendas da nenez
já perdidas no antonte

E roda na memória um filme antigo
cor sépia, e chove um mar com doze invernos
num zigzag temporal

A foto escacha em 100.000 partículas
redondas, figuras dum fotograma
que se nega a desaparecer
...
(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Carlos Silva  (Portugal)
(Foto) Blog pessoal: munditações.
http://munditacoes.blogspot.com.es/
rosanegra [Rosa Martinez Vilas] (Armenteira, 1974. Galiza)
Livros coletivos: A porta verde do sétimo andar  (2007), Acción Poética Penúltimo Acto (2010),  MULHERES entre poesia e luita (2011), 18 - Unha antoloxía de poesia galega-portuguesa (2012), Doces Loucuras - Louvor aos sorrisos. Colectânea Poética (2013), Meis é poesía (2013), Versos no Olimpo - O monte Pindo na poesía galega (2013), Versus Cianuro - Poemas contra a mina de ouro de Corcoesto, (2013), Alén do silencio (2014).
Ganhadora do terceiro premio de narrativa Manolo Lado com a obra A bruxa das Galanas, (2002). Ganhadora do terceiro premio de poesia Feliciano Rolán, co poemário Vacaloura dos meus soños, (2009). Blog pessoal: Sete Bolboretas verdes.
http://setebolboretasverdes.blogspot.com.es/

terça-feira, 28 de abril de 2015

Amor Sublime

Amor Sublime


Alentos que permeiam este Amor
Não podem perecer nas mãos humanas.
Nem vidas devotadas ao Senhor
Almejam conceber paixões mundanas,
Pois todo sofrimento qu'é indolor
Acolhe sempre em si coisas profanas.
Unir-me, assim, a ti, de corpo e alma,
Liberta-me das dores com mais calma.
Aspectos deste Amor qu' em mim sobejam,
Tentando sublimar meus pensamentos,
Ocupam-se em teus lábios, que desejam
Vitórias cardeais, lindos momentos...
Aceito o jugo alheio; e que me vejam
Nutrir com tal Amor tais sentimentos!
Imerso nos teus olhos divinais,
Consigo me enxergar co’ um brilho a mais.
Amada em Deus criada e virtuosa,
Recebe, agora, em ti meus ledos Sonhos.
Dobrando-te em ternura suntuosa,
Exprime, pois, em mim gestos risonhos.
Angélica Regente do meu mundo,
Lapida o Nosso Amor, que é tão profundo!

(Publicado em Elipse núm. 2, fevereiro de 2014)

Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal (Paraíbe, 1982. Brasil)
Bacharelado em Letras na Universidade de São Paulo (USP). Licenciatura em Letras na Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde também é Pesquisador de Estudos Literários e Monitor de Literatura Portuguesa. Professor de Língua e Literatura Portuguesa. Poeta lírico. Artigos publicados: «Ut Theologia Poesis: Confluências Poético-Religiosas entre Luís de Camões e Ruy Belo»; «Da Praesentia Tristitiae à Praesentia Insanitatis: Diálogos Temáticos entre Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Primeiras Estórias, de João Guimarães Rosa».